domingo, junho 18, 2006

mais uma fábula do oriente

Narayama Bushiko
Sholei Imamura trabalhou com os mestres Ozu e Kurosawa - dos quais herdou a paciência artesanal e a perfeição da fotografia e dos enquadramentos - e dirigiu quinze filmes antes de realizar A Balada de Narayama (Narayama Bushiko), premiado com a Palma de Ouro de Cannes em 1983.
Quando foi exibido no Brasil, em 1984, o filme atraiu menos público do que merecia e foi visto pela crítica como um semidocumentário sobre camponeses do Japão no século 19 - uma espécie de versão nipônica de A Árvore dos Tamancos, do italiano Ermanno Olmi. Nada mais falso. O olhar lançado por Imamura sobre seus rústicos personagens nada tem da condescendência cristã com que Olmi mostra seus camponeses, sempre puros e intrinsecamente bons. Ao contrário: para preservar suas tradições e sua lei social, a comunidade pintada pelo cineasta japonês é capaz de violências assustadoras, não heistando, por exemplo, em enterrar viva uma família inteira por furtado comida. Outro erro generalizado foi ver no filme de Imamura o limitado propósito sociológico de examinar uma determinada cultura. A Balada de Narayama vai muito além: por trás da aparente crônica do cotidiano de uma aldeia está uma reflexão poética e filosófica sobre o destino do homem e as obsessões que o atormentam: o sexo, o envelhecimento, a morte.
Mostrada com sensibilidade mas sem ênfase melodramática e quase sem música, a longa peregrinação do filho que carrega sua mãe nas costas até Narayama (local sagrado onde os velhos são deixados para morrer sozinhos) é um dos momentos mais contundentes do cinema desta década. É como se a natureza - que faz durante todo o filme um contraponto à vida social - absorvesse os dois personagens, integrando-os à montanha, aos bichos e à neve. O efeito talvez não fosse tão forte sem o excepcional desempenho dos atores Ken Ogata (que depois seria o Mishima de Paul Schrader) e Sumiko Sakamoto, que chegou a extrair os dentes frontais para poder caracterizar a velha.
Amargurado com a ocidentalização do Japão, que trouxe consigo a ênfase na efici~encia e na racionalidade, Imamura se define como um artista em busca das suas próprias origens. A Balada de Narayama testemunha essa procura.
J.G.C.

Um comentário:

Anitche disse...

você é amigo da Beatriz Simas, não é? Foi pelo orkut dela que você acessou meu blog pela primeira vez?

beijos,