
Nunca Te Vi, Sempre Te Amei (1987) - (em inglês: 84 Charing Cross Road).
A história do filme é belíssima e prova o quanto a sensibilidade é capaz de unir, onde quer que se encontrem, criaturas que carregam no peito o amor à literatura. Criaturas que terão sempre almas gêmeas espalhadas pelo o mundo. Basta deixarmos por conta do universo e ele se encarrega de conspirar, entrelaçando as pessoas. Tudo o mais é “percurso e casualidade”... Os exemplos estão aí, esparramados nos filmes e livros, comovendo os que se aventuram nesta busca e celebram os encontros. Que maravilha!
Helene Hanff (personagem de Anne Bancroft) é uma dessas solitárias mulheres de meia-idade que vive em Nova Iorque. Para dar conta de algumas “ausências” em sua vida, ela elegeu a literatura como tratamento de “primeiro socorro”. E fez muito bem, pois consegue se envolver completamente nas tramas das histórias e, com isso, cicatriza antigas dores. Só que ela nunca poderia imaginar o que o destino reservava...
Inquieta e insaciável na leitura, Helene põe-se a procurar em livrarias exemplares raros de grandes romances. Freqüenta sebos, quiosques à beira das calçadas, sempre em busca de novas emoções. E descobre, por meio de um anúncio, uma loja de livros usados na distante Londres conservadora.
Quis o destino que o dono dessa loja, o respeitável Frank Doel (personagem de Anthony Hopkins) fosse o responsável pelo atendimento. A partir daí, estabelece-se uma intensa correspondência entre os dois, com posturas bastante distintas. De um lado, Helene, atrevida, irônica e muito pessoal. Do outro lado, Frank e a sua equipe. Como bons representantes ingleses, todos são sóbrios, contidos e fleumáticos.
Foram muitas cartas de lado a lado, produzidas ao longo de vinte anos. Cartas que fizeram nascer entre eles uma profunda afeição e cumplicidade e que para muitos seriam entendidas como “amor”. Bem, não deixa de ser. Só que um amor diferente. Criado no canteiro da generosidade, da solidariedade e do fascínio que as “palavras” dos livros exercem nas criaturas. Ainda que as fantasias possam ter aflorado na relação de Helene e Frank, que ninguém é de ferro, o que se percebe é a mais bela e tácita “aceitação” entre eles. Fazendo-me lembrar um texto de Artur da Távola, que diz: “...quando há afinidade, a aceitação existe ou acontece antes do entendimento”. Céus, quanta verdade!
Por tudo isso, creiam-me, ficamos emocionados com o desenrolar da história, cujo final é surpreendente. O enredo apenas prova que há mais afinidade e entendimento entre as criaturas do que imaginam os pobres de espírito. Atesta, também, que nenhuma tecnologia poderá extinguir nos homens o gosto pela literatura. Os livros, estes sim, cumprirão sempre o extraordinário papel que a sensibilidade outorga: libertadores de almas!
http://www.poltronaespecial.pro.br/marco01.html
Um comentário:
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