terça-feira, maio 30, 2006

conto do cotidiano

despedidas e reencontros

Ali naquele movimento todo, as pessoas se preparam para embarcar, enquanto outros estão desembarcando para começarem o longo processo de readaptação à dura realidade que deixaram por alguns dias e novamente vão enfrentar. Sentado na lanchonete, enquanto está sorvendo a xícara de café, Milton fica a observar absorto em seus pensamentos, aguardando o horário para seu embarque rumo à milenar China, dali a 2 horas. Ali, sentado, fica a imaginar o desconforto da longa viagem, do fuso horário, da comida que servirão a bordo, a saudade da esposa e da filha ainda pequenina que ficaram na imagem em sua retina, no momento da despedida entre ambos os seres, quando partiu da cidade em que morava, perto da fronteira de um país vizinho.
Em seus devaneios, fica curioso em tentar desvendar os segredos e os mitos presentes no interior do cérebro de cada pessoa ali, que vão e chegam a todo instante, quando o auto-falante anuncia a chegada e a partida dos vôos. As famílias chorando, tanto durante a despedida, pela incerteza se ele vai chegar com segurança e tudo vai correr conforme o previsto quanto na volta, quando todos ficam felizes que tudo tenha corrido conforme o planejado, ficando todos felizes com o retorno do ente querido.
Talvez nem todos estejam sentindo o mesmo ódio e destempero que ele. Essa viagem programada de última hora, depois que um idiota ganhara as eleições no país vizinho, resolvera romper todos os contratos feitos pelo governo anterior no momento que um grande forno, comprado na China, havia acabado de ser negociado. Agora ele tinha que ir até o fim do mundo para tentar desfazer o negócio e implorar para que eles pudessem compreender a situação e não aplicar nenhuma sanção ou multa, pois o equipamento já deveria estar sendo embalado para ser enviado pelo navio.
Esta angústia e raiva em fazer algo que realmente não estava planejado nem gostaria de ali realizar, no período próximo ao dia das mães, no momento que pretendia levar a pequena filha ao zoológico tiveram que ser adiadas. Milton sequer tema a certeza se vai correr tudo bem nesta longa e cansativa viagem, no instante que seu telefone toca. É o intérprete que a empresa arrumou para ir junto com ele, pois chinês não se aprende em uma semana. Neste momento lembra-se que precisa ligar para sua família e chorar na última despedida de sua esposa e sua amada filhinha.

Um comentário:

Anônimo disse...

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